Antes do barulho, a escuta

Cheguei mais cedo ao ensaio do bloquinho de carnaval. Um silêncio antecedia a agitação que tomaria todo o espaço. As ideias começaram a borbulhar. Precisei escrever. Comigo é assim, há momentos em que o corpo pede expressão, e as palavras surgem antes mesmo de qualquer intenção consciente.

Estou relendo “Como se encontrar na escrita”, de Ana Holanda, e refletindo sobre o quanto suas ideias seguem fazendo sentido para mim. Em seu livro, assim como na oficina que fiz com ela em 2018, Ana apresenta o conceito de escrita afetuosa. Uma escrita que afeta, que toca, que é menos sobre método e mais sobre presença diante da palavra.

Para além da técnica fria e objetiva, a escrita afetuosa traz o calor do diálogo. Um convite para que o leitor entre, sente e sinta. Ela nasce da escuta. Do silêncio antes do barulho. Do contexto. Daquilo que ainda não virou frase, mas já pede forma.

A técnica é importante, claro. Ela sustenta, organiza, dá contorno. Mas, sozinha, pode produzir mensagens corretas e distantes, que informam sem tocar, que dizem sem conversar. A escrita afetuosa parte de outro lugar. Ela se constrói na relação que acontece no encontro com quem lê.

Talvez por isso esse conceito dialogue tanto com a minha prática profissional. Mesmo em textos institucionais, em contextos formais, há sempre alguém do outro lado. Alguém que lê, interpreta, sente. Escrever com afeto não é abrir mão da seriedade, mas assumir responsabilidade pelo vínculo que a palavra cria.

Penso nos textos que passam por nós todos os dias. Comunicados, e-mails, anúncios. Muitos são tecnicamente impecáveis, mas falta presença. Falta a percepção de que existe gente do outro lado, com dúvidas, receios e expectativas.

Quando a escuta vem primeiro, o texto muda. Deixa de ser apenas transmissão de informação e passa a ser gesto. E pode acontecer em qualquer contexto, mesmo em estruturas rígidas. Não se trata de uma informalidade forçada, mas atenção real à relação que se estabelece ali.

E o que nasce do intervalo?

Enquanto o silêncio do ensaio ainda persistia, pensei que escrever também é isso: perceber o intervalo. Respeitar o tempo entre uma coisa e outra. Saber que, antes da batucada, existe escuta. E que é dali que as histórias nascem.

No fim, é uma escolha. Escrever de longe ou escrever de perto. Falar para ou falar com. Informar apenas ou permitir algum tipo de encontro. Escrever com escuta é escrever com afeto. É reconhecer que há alguém ali, esperando. E que esse alguém merece mais do que palavras corretas. Merece presença.


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